A cachimba do véio tá no toco

‘”Que fumaça cheirosa vovô, sai do seu cachimbo?
 Não sei se é arruda vovô, ou se é manjericão,
 só sei que essa esta fumaça vovô, faz bem ao coração””

 

Ele chega de mansinho, devagar, como é próprio dos muitos anos de idade e da vida sofrida que castigou o corpo.
Senta no banquinho, no seu toco, como gosta de chamar.
Em suas mãos o terço, o rosário no pescoço com a cruz para abençoar a todos os filhos que a ele se chegarem.
Com delicadeza, prepara suas coisas, simples e belas.
Ali está sua xícara de café, quente e sem açúcar – o margoso – cujo perfume toma conta do ar.
Em suas mãos está seu cachimbo, preparado no seu tempo, o tempo do mundo que ele conhece tão bem.
Cuidadosamente ele pega seu fumo cheiroso, misturado com as ervas que o menino colheu com carinho pra agradar o vô, e preenche o fornilho do seu cachimbo; O véio vai pitá.
Ele pila o fumo devagar, tomando cuidado pra não entupir o cachimbo, e enquanto pila vai rezando pra Jesus e Nossa Senhora, pedindo por cada um dos filhos que se arrodeiam.
O nego véio pede o fogo e firma seu toquinho de vela, cruza o ar com mãos encurvadas e acende o seu cachimbo, puxando a fumaça devagar e soltando no ar, perfumando a casa que o recebe, agradecendo pela acolhida, abençoando cada filho ali presente.
Sua cachimba está acesa, e ele pita com alegria aquela fumaça cheirosa.
Seus olhos pequenos, que quase já não enxergam, agora estão marejados pelo amor que sente pelos filhos que o cercam, mas quem olhar de perto, pode ver o brilho dos olhos de um menino, misturado com mansidão de quem muito já viveu.
Faz o sinal da cruz e agradece a Deus por mais uma vez estar ali.

 

Manda avisar que Preto Velho está em terra!

Adorei às almas!

 

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