A Umbanda falhou em ensinar o respeito?

Hoje, 31/03/19, faz alguns dias que o STF decidiu por unanimidade que os cultos de matriz africana têm o direito de sacrificar animais nos seus rituais. É até estranho pensar que em um estado laico (que não tem religião ‘oficial’) seja necessário que os juízes permitam o abate de animais para que os candomblecistas tenham liberdade de culto.

É claro que um mar de desinformação (as chamadas “fake news”) se alastrou pela internet, com uma famosa defensora de animais da TV falando que agora poderia “degolar um pobre cachorrinho” e que os candomblecistas viam aos animais como ‘meros objetos’. Nada mais errado, o Candomblé oferece ao orixá um ser sacralizado, cuja vida merece todo respeito.

O post tá aqui ilustrando a matéria, mas não concordo com uma vírgula do que foi dito ali, que fique bem claro.

No entanto, gostaria de comentar sobre os comentários que essa notícia recebeu na comunidade umbandista. A Umbanda e o Candomblé são antes de tudo religiões quase-irmãs, que partilham entre si muitas coisas.

Faz parte da história do desenvolvimento da Umbanda que alguns terreiros que eram do Candomblé tivessem mais ligação com a parte africanista, assim como terreiros que antes eram centros espíritas terem mais influência de Allan Kardec. Essa diversidade faz parte da religião e é uma das coisas que a torna tão bonita: cada terreiro é um universo.

Era de se esperar portanto que umbandistas comemorassem a decisão do STF, que se sentissem acolhidos afinal quando se trata de determinadas pessoas, candomblé e umbanda “é tudo macumba”… Só que não.

Entre tudo que vi, o que mais me chamou atenção foram umbandistas achando um absurdo a prática do sacrifício de animais e desejando que isso fosse proibido pelo Estado. Já não bastou décadas de perseguição pela Polícia fechando os terreiros? Quebrando santos, destruindo atabaques?

Ou algum umbandista vive num mundo tão cor-de-rosa que acha que por não usar sangue animal está à salvo da intolerância? Ou pior ainda, acha que por depender apenas do sangue vegetal está mais elevado espiritualmente que os candomblecistas?

 

Se for isso, sinto muito: a umbanda falhou.

Falhou em promover a reforma íntima em seus praticantes, prática tão importante trazida do kardecismo. Falhou em formar cidadão melhores e mais éticos. Falhou em fazer o fiel mais empático, capaz de se compadecer com a dor do outro. Falhou em ensinar respeito.

A diferença na prática religiosa não pode ser usada para conseguir respeito alheio, como muitos umbandistas que se apressam em dizer: “sou umbandista mas não mato animais!”. Respeito é algo que deveria ser ponto pacífico entre todos, mas na atual sociedade, o respeito tem que ser conquistado.

Um passo de cada vez para que não voltemos a ter medo de andar de branco na rua e levar uma pedrada na cabeça ou que uma viatura de polícia apareça a cada vez que fomos despachar uma oferenda, tendo ela animais ou não.

Converse com seus colegas, traga-os de volta desse mundo cor-de-rosa da “umbandinha paz e amor”, que nunca pôs o pescoço pra fora do muro do terreiro, e mostre que o preconceito tá aí apontando a intolerância contra todos nós.

E mais que tudo: não permitam que a nossa religião seja usada de desculpa para justificar o preconceito contra outra religião. Não sacrificar animais não nos torna mais evoluídos e nem muito menos um exemplo que o candomblé deveria seguir.

 

 

Uma ressalva: Eu, na minha opinião particular, não me sinto confortável com o sacrifício animal, inclusive atendo tratamentos espirituais em animais no meu terreiro. Mas aqui não se trata de opinião, mas de direito e respeito. E isso está acima de qualquer opinião pessoal nossa.

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Cleber Quichimbí

Cleber Quichimbí

Cleber 39 anos, filho de Oxalá... Idealista e emotivo. Metódico. Estudioso. Qualquer brinquedo é motivo para ser montado e desmontado. Este é seu maior desafio na vida: entender como as coisas funcionam nos mínimos detalhes.

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