Cambono: o irmão caçula na família da Umbanda

Esses dias li que ser cambono é o primeiro passo de uma jornada sacerdotal, mas afinal… o quê significa cambonar na Umbanda?

Quando a gente começa a frequentar um terreiro, percebe que existem diferentes papeis para as pessoas trabalharem na prática da caridade. Existem os pais, ogãs tocando atabaque, iabás preparando as coisas na cozinha, os médiuns atendendo e finalmente temos os cambonos. São esses trabalhadores que são o “pau pra toda obra” e trabalham recebendo os assistidos, ajudando na cozinha, auxiliando os guias, e tudo que se possa imaginar.

Se aplicarmos uma lógica de hierarquia de empresas, poderia parecer que os cambonos são o nível funcional menor da casa, mas umbanda não é empresa, é família. Nenhum dos trabalhadores está ali pra receber nada mais que o sentimento de dever cumprido na prática da caridade.
Imaginemos uma família grande, envolvida em fazer o almoço do domingo. Sabe o irmão caçula, que enquanto ainda não sabe fazer a comida, vai separando as coisas na geladeira pra ajudar a mãe?
Até ele ter experiência, vai aprendendo tudo, estendendo a toalha, pondo a mesa, cortando os vegetais…

Ninguém pode dizer que ele não será tão bom naquilo quanto a mãe, um dia, e está ali ajudando e aprendendo ao mesmo tempo, e conforme for aprendendo e crescendo, vai poder usar a faca, mexer no fogão, tudo no seu tempo sem pôr em risco o irmãozinho.

O terreiro é igualzinho, todo mundo entra como o ‘irmão menor’ na corrente e vai tomando experiência colocando a mão na massa pra aprender.

Tudo pareceu lindo até agora, mas o processo não é tão simples. O cambono tem que lidar com as dores dos outros (e muitas vezes com as dores e defeitos dos outros médiuns), tem que ouvir revelações das pessoas sem julgar, ficar do lado do guia e no instante seguinte “sumir do mapa” pro assistido ficar mais confortável, entre tantas outras coisas.
E tudo isso não vem com um manual de instruções. Não existe exercício para apagar da mente as histórias que você ouviu durante a gira, nem pra ensinar a lidar com a dor do outro sem se envolver.

Isso tudo toma tempo, treino e autoconhecimento para ser conseguido. E a gente aprende tentando e errando! Escapa uma cara de espanto aqui e acolá, uma vela teima em queimar sua mão, às vezes fica um clima no ar de se estar sendo incoveniente, uma interrupção fora de hora quando o guia está falando… tudo isso acontece com todo mundo e é parte do aprendizado no desenvolvimento mediúnico.

E a hora de aprender e se desenvolver é justamente quando se é cambono. Que mãe amorosa iria brigar com o filho porque ele esqueceu de pôr os talheres na mesa ou porque derrubou comida no chão?

Umbanda é família de amor, e onde se ensina na prática que todos tem seu valor e  contribuição para dar no bom andamento da casa.

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Cleber Quichimbí

Cleber Quichimbí

Cleber 39 anos, filho de Oxalá... Idealista e emotivo. Metódico. Estudioso. Qualquer brinquedo é motivo para ser montado e desmontado. Este é seu maior desafio na vida: entender como as coisas funcionam nos mínimos detalhes.

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