Homossexualidade e as pombogiras

Hoje vou falar de um dos temas mais revestidos de preconceito dentro da Umbanda: homens e guias femininos, mais especificamente pombogiras em médium masculino.

Muito já foi dito que não passa de um mito que uma pombogira teria poder de transformar a orientação sexual de um médium, fazendo-o se “transformar” em homossexual. Nesse ponto imagino que exista muita gente falando e concordando que uma coisa não tem a ver com a outra.

No entanto hoje quero falar sobre um tema que ninguém quer falar. E quando o médium se desenvolve com pombogira e deixa de se relacionar com mulheres? Muitos casos assim acontecem nos terreiros e são ignorados por puro desconhecimento.

Cada caso é um caso, e vou tratar de um deles. É o caso do médium que já tem orientação homossexual reprimida.

A energia de pombogira, longe de ser energia de safadeza ou de libertinagem, é intimamente ligada à expressão do sexo, da liberdade de ser quem se é e de trazer à tona a força do que se carrega por dentro.

Essa força estudada por Freud é a libido, longe de ser apenas sexual, ela está em tudo que nos dá prazer: num trabalho bem feito, numa comida deliciosa, na vontade de exercitar o corpo pra sua saúde, na busca por tudo que traz prazer ao homem, inclusive o sexo.

No entanto essa mesma força é repreendida, represada com toda repressão possível por mecanismos de autossabotagem internos.

E é justamente aí que entra a força de pombogira. Para quebrar laços de autossabotagem e repressão internos que nos fazem sofrer.

E assim que essa força se expressa de uma forma libertadora, todas as estruturas do médium são alteradas.

E aí aquele médium que carrega consigo a orientação homossexual de maneira reprimida (muitas vezes inconscientemente) se vê frente a uma força capaz de quebrar seus anos de autorrepressão.

E aquilo que estava dormente, mas presente, começa a brotar.

Mas não pense que pombogira arrebenta portas com pontapés! Trabalho de mulher é delicado e eficaz. Solta devagarinho as amarras, quebra devagar os medos sem machucar.

E aí que vemos o médium cada vez mais inclinado a expressar o que sempre trouxe dentro de si para essa encarnação, florescendo algo que já era de si mesmo, e que teria de aparecer mais cedo ou mais tarde na encarnação, como dor e repressão ou como força e empoderamento.

Nem preciso dizer qual destes caminhos a pombogira vai preferir que seu médium tome não é?

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(Eu poderia falar sobre médiuns que simplesmente se escondem de quem são e colocam na pombogira a “culpa” de seu comportamento homossexual para não ter que responder por seus atos.

Não é difícil reconhecer quando estamos de frente a um caso desses. É só ver qual o conteúdo do que faz o médium e como se porta. Quem quer usar um guia de desculpa de seus atos sempre tem atitudes de baixo teor, com manifestações chulas, que só servem para escandalizar quem assiste, sem nenhum compromisso com a libertação do médium de amarras e medos internos que o impedem de ser feliz como é.)

 

(Imagem de Robson Trindade. https://www.pinterest.pt/pin/353462270730387341/)

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Cleber Quichimbí

Cleber Quichimbí

Cleber 39 anos, filho de Oxalá... Idealista e emotivo. Metódico. Estudioso. Qualquer brinquedo é motivo para ser montado e desmontado. Este é seu maior desafio na vida: entender como as coisas funcionam nos mínimos detalhes.

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