Ouvindo discos antigos do Gilberto Gil eu comecei a fazer associações entre as músicas e os orixás. E se os orixás fossem cantados em músicas do Gil? As reações cantadas nas músicas seriam típicas de qual orixá? É isso que vamos ver hoje.

O Gil tem várias músicas dedicadas a orixás principalmente pela década de 1970 (Rainha do mar, Iansã, Opaxorô, etc), mas a ideia aqui é brincar e ir mais longe, um texto pra gente conversar e principalmente ouvir bastante música boa.

Cada música descreve uma situação em que a orixá escolhida é retratada, e começamos pela mãe mais velha, Nanã:

Nanã – Drão (ou como dói estar morto pra quem se amou)

Drão, o amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar

Drão é uma música em que Gil fala da dor do fim do casamento, de como é difícil se perdoar dos erros que desgastaram a relação entre ele e a ex-esposa.

E se Nanã estivesse nessa situação, reagiria exatamente como canta a música, pondo um ponto final que nunca mais olhará pra trás. Nanã é assim, uma orixá que demora a tomar uma decisão, que dá mil chances, perdoa mais mil vezes, mas quando decide que não quer mais nada com a outra pessoa é como se ela morresse pra Nanã. Sem sentimento nenhum, nem raiva, nem ódio, nem saudade, é como se essa pessoa fosse apagada da memória de Nanã. Essa característica muitas filhas de Nanã também carregam: são verdadeiros tanques de guerra: mulheres que protegem, amam e cuidam dos seus com todas as suas forças, amiga mais leal de todas, mãe mais severa e também a mais amorosa e altruísta de todas.

Mas quando a filha de Nanã diz “não” pra você, não tem volta. Você foi deixado pra trás e é como se não existisse mais.

E não existir mais é desesperador, saber que você não representa absolutamente nada para outra pessoa é como a morte em vida, e é disso que o Gil tem tanto medo quando diz que o amor “tem que morrer pra germinar“, na esperança de um dia ter uma chance de voltar a ver a pessoa. Não é impossível, mas com uma filha de Nanã? Esqueça.
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão, não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão
De novo Gil implora pelo perdão da ex-esposa, dizendo que até Deus o perdoaria. Quem mandou gostar de alguém de Nanã? Até Deus perdoa, a filha de Nanã jamais perdoa.

Iemanjá – Ela (Se ela é o farol, o navegador só tem um caminho: o dela)

Musa única, mulher
Mãe dos meus filhos, ilhas de amor
Cada ilha, um farol
No mar da procela, ela
Ela que me faz um navegador

Se tem alguém que se torna o grande norte na vida de quem ela escolhe viver, essa é Iemanjá. Em tempos de mares calmos, Iemanjá é a estabilidade, o amor carinhoso e cúmplice. Iemanjá pode até abrir mão de si pelo seu amado, mas como ela é quem faz do Gil um navegador, quem diz pra onde navegar? O farol. E quem é o farol nos mares da lua? Acertou quem disse Iemanjá.

(Procela é um dos mares que a gente vê na Lua e que fazem aquele desenho de ‘São Jorge matando o dragão’ que nós vemos no satélite natural da Terra)


Iansã – Expresso 2222 (desencarne e levada da alma até Jesus)

Segundo quem já andou no Expresso
Lá pelo ano 2000 fica a tal
Estação final do percurso-vida
Na terra-mãe concebida
De vento, de fogo, de água e sal

Iansã é a orixá da ação, do movimento, é um orixá do fogo e é também quem encaminha nossa alma depois do desencarne e nos levar às colônias para nossa nova etapa na vida, que continua para além do corpo físico. Quando o Gil diz que a estação final do trem é o percurso da vida, está cantando e comparando o desencarne com uma grande viagem que começou na “terra-mãe” de vento, de fogo, de Iansã.

O Cristo é como quem foi visto subindo ao céu
Num véu de nuvem brilhante subindo ao céu

E se o trem parece que tem como destino Jesus, que o Gil fala do Cristo Redentor, no final da música ele diz que quando se chega no Cristo ele não está lá como coisa concreta, mas só chegando lá é que se sabe como é chegar ao Jesus em espírito brilhante, subindo ao céu junto com as almas que o trem de Iansã está levando.


Oxum – Esperando na janela (ela pode se dar ao luxo de esperar)

E esse aperto no fundo do peito
Desses que o sujeito não pode aguentar
E esse aperto aumenta meu desejo
E eu não vejo a hora de poder lhe falar

Quer um amor romântico? Daqueles em que a graça está em esperar o ser amado chegar, em que a emoção do reencontro é feita com horas de lamento e dores de saudade? Essa é Oxum.

Oxum é quem está esperando na janela, dentro de seus próprios pensamentos, sem medo de perder o seu amado que está completamente apaixonado. E Oxum parece manhosa mas é ardilosa e sabe muito bem que tem o amado na palma das mãos.

Por isso eu vou na casa dela, ai ai
Falar do meu amor pra ela, vai
Tá me esperando na janela, ai ai
Não sei se vou me segurar

O Gil apaixonado já sabe que não tem mais controle do que sente, e a Oxum pode ficar esperando na janela porque sabe que sua espera num dura muito e logo logo vai ouvir as juras de amor que ela tanto gosta.

E uma dica de filme: Eu Tu Eles, com a Regina Casé. Sem estragar e contar o fim do filme, digamos que mulheres de Oxum tem como conseguir dos homens tudo que ela quer. Inclusive um universo girando ao redor dela. Vale a pena assistir.


Bônus: Obaluaê – Pessoa nefasta (mas que tem salvação)

Reza, chama pelo teu guia
Ganha fé, sai a pé, vai até a Bahia
Cai aos pés do Senhor do Bonfim

Até agora só falei de amor, então um bônus: Pessoa Nefasta. Nefasto quer dizer alguém que traz a morte, que prejudica quem está perto, que tem algo de ruim dentro de si.

E para quem é nefasto, para quem traz a doença por onde passa, só Obaluaê pode transmutar essa energia. O Gil aqui diz pra pessoa nefasta ir rezar, se ajoelhar, fazer promessa, mas que vá cair aos pés do santo para pedir sua redenção.

Acabarás perdendo a ansiedade, a saudade
Livre das dentadas do mundo
Já não terás, no fundo, desejo profundo
Por nada que não seja bom

Uma das tradições sobre Obaluaê é que as orações sempre são feitas com o inverso do que se quer pedir. Pede-se para Obaluaê levar a doença embora, não pela saúde, pede-se pelo fim do sofrimento, não pela alegria. E até nisso a música é um pedido a Obaluaê: a pessoa depois de sua redenção perderá a ansiedade (ao invés de cantar que a pessoa terá paz) e não terá desejo por nada que não seja bom, ou seja,  só desejará coisas boas para si e para os outros.

Muita gente não ouviu com atenção a letra de Pessoa Nefasta e acha que o Gil está apenas mandando a pessoa se afastar, que o caminho fique livre de gente nefasta. Mas no final a pessoa pode encontrar a redenção de seus pecados aos pés do santo, e é essa a mensagem da música, afinal até uma pessoa nefasta merece se arrepender e se melhorar.

Eu fico por aqui, axé a todos!

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