O Menino que plantava Montanhas

Airá vivia solitário. Oxalá havia criado o mundo há pouco tempo quando tudo se passou.

Ele morava entre as montanhas, em um vale muito fértil, onde plantava quiabos, feijões, inhame, Palma e muitas ervas.

Porém, nas terras de Airá crescia algo que em nenhum outro lugar no Aiê se via: Airá plantava montanhas!

Todos os dias, o velho Airá subia os morros para apanhar as pedras que ficavam no cume. Estas pedras tinham um poder especial: eram sementes.

Com muito cuidado, Airá as recolhia e levava consigo em sua bolsa, sempre cantando a Oxalá, para que sua colheita fosse proveitosa.

Airá plantava as pedrinhas no chão do vale e regava com as águas de Amaralina, água sagrada que as sereias traziam a ele a mando de Iemanjá, uma senhora que vivia junto ao mar e cuidava de todos que viviam naquelas águas.

Airá se ajoelhava e batia no peito, cantando à Mãe Terra que lhe abençoasse a tarefa.

Quando o canto se encerrava, Airá bradava forte e batia os pés no chão e quando erguia suas mãos, as mais lindas montanhas, montes, rochedos e pedreiras brotavam daquele solo.

Airá olhava satisfeito seu trabalho e agradecia a Olorum por ter, mais uma vez, cumprido a tarefa que lhe foi dada por Oxalá.

O velho agricultor colhia as montanhas e as levava em suas costas cansadas até o local onde as colocaria.

Era um trabalho extenuante, mas Airá o fazia com gosto. Sua única tristeza era a solidão.

Um dia, ao recolher as pedras sementes, Airá viu uma que nunca havia visto: Era uma Granada, linda e cristalina, e em seu interior se via um fogo tão bonito e vivo que Airá se encantou.

Ele recolheu a pedra e, sem pensar duas vezes, a levou à Senhora do Mar.

Iemanjá sentiu que a pedra era especial e que não era uma semente, sentiu que nela havia vida.

A formosa senhora embalou a pedra em seus braços e começou a cantar, chamando suas sereias e tritões para perto. Airá consentiu ansioso.

As sereias entregaram a Iemanjá uma linda concha repleta de pérolas de todas as cores e a senhora do mar deitou delicadamente a pedra de fogo sobre o berço improvisado.

As sereias e os tritões cantavam em coro, regidos por Iemanjá, fazendo surgir uma luz muito forte dentro da concha.

Iemanjá pediu a Airá que cantasse para Oxalá, lhe pedindo que abençoasse aquele ato de amor. Airá obedeceu a senhora e bradou com toda sua força, clamando as bênçãos do velho Orixá.

O brado de Airá fez a terra tremer e nesta hora, Iemanjá desnudou seus majestosos seios e derramou seu leite sobre a pedra de fogo.

Houve uma grande explosão e de dentro da pedra surgiu um menino, com olhar forte e austero como Airá e doce e benevolente como o de Iemanjá.

Airá caiu ao chão, chorando de gratidão a Oxalá, por lhe atender as preces e àquela senhora, pelo amor que deu vida ao seu filho.

Iemanjá pegou a criança no colo e deu-lhe o peito para mamar, e perguntou a Airá:

– Como se chama o nosso filho?

– Seu nome é Xangô, aquele que veio do fogo. Respondeu Airá.

– Kaô, Xangô!

Xangô cresceu um menino forte, sempre ao lado de Airá, que lhe ensinava sobre o mundo, sobre a vida e as pessoas, também sobre a magia do plantio e da colheita e da importância de trabalhar duro e cumprir sua missão, lições que Xangô sorvia até a última gota.

O velho Airá ensinou Xangô a recolher as pedras nos cumes dos montes e a fecundar o solo de seu vale fértil, dando ao menino o poder de também plantar e colher montanhas e de levá-las aos quatro cantos do reino de Oxalá.

Apesar de amar muito Airá e todos os seus ensinamentos, Xangô era genioso e indisciplinado, e ajudava o pai em suas tarefas muito a contragosto.

Xangô queria ver o mundo, ir para o mar, conhecer cada pessoa que existia, mas seu pai lhe pedia calma e lhe dizia que tudo tem seu tempo e que na hora certa, ele poderia sair.

Airá explicava para Xangô que antes de voar, ele deveria aprender a andar e que somente poderia fazer o que quisesse quando cumprisse com seu dever.

Xangô odiava receber ordens, mesmo de seu pai, mas acatava tudo, mesmo a contrariado.

Um dia, quando ajudava Airá a levar uma montanha em um lugar muito distante de casa, Xangô se encantou com o som que vinha de um vilarejo.

Era uma festa, donde se ouviam atabaques, muita algazarra, risadas e bagunça. Os olhos de Xangô brilharam ao olhar em direção ao vilarejo, no que foi prontamente interrompido por Airá:

– Xangô, nunca vá àquela aldeia! É muito perigoso!

– Mas pai, só quero ver como é…

– Eu te proíbo de ir lá, Xangô. Me prometa que nunca entrará naquele lugar!

– Sim senhor, meu pai. Te prometo.

Airá se deu por satisfeito com a resposta do menino, Xangô não.

Quando Airá parou para descansar na sombra de um Iroko, Xangô aproveitou o sono de seu pai para fugir de suas vistas e ir até a festa proibida.

Xangô estava encantado vendo toda aquela gente. A festa, a música, o barulho, eram coisas que ele não conhecia. Alguns rapazes ali também perceberam que o jovem não era daquele lugar.

Os rapazes se aproximaram e lhe fizeram uma saudação. Xangô os respondeu batendo no peito e na testa, como forma de respeito e amizade.

Airá educou Xangô para saber se portar como os nobres, coisa que o jovem fazia muito bem. Mas na vila, sua cortesia foi interpretada como sinal de riqueza, o suficiente para dar sinal verde aos rapazes mal intencionados a ludibriar o menino.

Airá conhecia bem a vila, já se perdera por lá quando mais jovem e sabia que ali era parada de bandoleiros a andarilhos em busca de aventura e de levar vantagem.

Os rapazes receberam Xangô como um rei, faziam saudações e reverências, o que inflou o ego do menino.

Lhe ofereceram Obís e galinha assada, uma coroa de flores e muito vinho de palma. Xangô estava em êxtase, comeu e bebeu até adormecer.

Airá acordou num pulo, e ao perceber que Xangô não estava ao seu lado, teve certeza que o rapaz o desobedecera. O velho correu o mais que pode, tentando evitar o pior.

Os rapazes aproveitaram o sono de Xangô e foram mexer em sua bolsa, mas encontraram ali somente algumas pedras.

Enraivecidos pelo plano frustrado, acordaram Xangô lhe exigindo dinheiro, que o menino disse não ter. Xangô sequer conhecia o dinheiro.

Neste momento, os rapazes o atacaram, mas não contavam que aquele menino era tão forte e bravo.

Xangô lutou bravamente, desviando dos ataques e batendo nos rapazes com seus punhos fortes.

Os rapazes correram, fugindo da fúria de seus golpes e assutados com seus gritos, já que o menino, apesar de pequeno, já ostentava um vozeirão imponente.

Fugiram quase todos, menos um, o mair ardiloso e sagaz dos bandoleiros, que se escondeu planejando algo.

O menino regojizava sua vitória quando viu Airá entrando correndo na vila e vindo em sua direção. O velho se jogou na frente de Xangô no exato momento em que uma flecha envenenada, atirada pelo rapaz escondido, atingiria seu peito.

Airá caiu ao chão de joelhos, sorrindo por ter protegido seu filho amado e desfaleceu nos braços de Xangô.

Oxalá não permitiu que Iku ceifasse a vida Airá naquela hora, e no momento que o pai de Xangô caia ao chão, o velho orixá o levou para o Orum, recebendo seu velho amigo Airá como irmão e o agradecendo por uma vida a seu serviço.

Xangô estava paralisado de tristeza e raiva por ver seu pai ser ferido por aquele rapaz e desaparecer logo em seguida. Seus olhos ficaram vermelhos e um fogo violento tomou conta de sua pele, cobrindo o menino de chamas.

O menino abriu sua bolsa e encontrou as pedras-semente de seu pai. Xangô levou as pedras ao peito e as transformou em pedras de fogo, que lançou com toda sua ira contra o algoz de seu pai. O rapaz não teve sequer tempo de pensar em fugir.

Xangô correu pela aldeia e atirou as pedras de fogo para todos os lados, dispersando a festa que parecia não ter fim. Todos correram assustados e os poucos que ousaram enfrentar o menino, tiveram o mesmo fim do rapaz que atirou a flecha em Airá.

O menino, tomado por sua ira, pegou um par de machados que estava no meio da praça e com eles pôs a vila a baixo, para que nunca mais ninguém fosse enganado naquele lugar.

Com a última pedra semente de seu pai, Xangô plantou o chão e fez nascer uma linda pedreira.

O menino subiu no alto do rochedo e batendo seus machado nas pedras, chorou e pediu perdão a Olorum e à Airá, e jurou nunca mais deixar de cumprir o seu dever e que seguiria os caminhos de seu pai.

Naquele momento Xangô também se comprometeu a zelar pela justiça dos homens e jurou não permitir que ninguém se aproveitasse dos mais ingênuos, como haviam feito com ele.

O despertar da consciência de Xangô foi tão intenso e a verdade e força de suas palavras era tão grande que Oxalá decidiu intervir.

O velho orixá lançou-lhe um raio sobre a cabeça que o fez homem crescido, aceitando seu compromisso em proteger a ordem e a justiça e em continuar o trabalho de seu pai.

Assim o menino indisciplinado se tornou Xangô, o regente da justiça, da ordem e da disciplina e o grande protetor das pedreiras e dos trovões. Xangô seguiu os passos de seu pai e mesmo crescido, nunca deixou de ser o menino que plantava montanhas.

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