A tribo vivia em uma longa paz já há muitos anos. Lá viviam muitos jovens, moços e crianças e também um velho curandeiro.

Desde a última guerra já havia se passado muitas luas grandes e o último menino que viu a guerra já era muito velho, ou a terra já havia o recebido de volta.

Quase mais ninguém se lembrava dos tempos de medo e tristeza; A guerra era só um fato triste do passado para quase todos, menos para um homem.

O curandeiro vivia em uma tenda de palha, recluso, quase não falava. Na verdade, ninguém sabe ao certo quem foi o último que conversou com ele.  Sempre diziam ter sido o pai ou o avô de alguém, mas ninguém nunca confirmava.

Ninguém sabia quanto tempo já havia vivido ou por onde havia andado. Ninguém conhecia seu rosto, a única coisa se sabia era seu nome, que não ousavam dizer sem lhe fazer uma reverência, nem mesmo os mais velhos. Seu nome era Xapanã.

O velho Xapanã morava sozinho e sua casa era muito diferente das demais: redonda, sem portas ou janelas visíveis, coberta de palha comprida do teto ao chão. Nade se via lá dentro e todos tinham muito medo de se aproximar.

Também havia muito respeito, pois o velho curandeiro nunca deixou de ajudar a quem dele precisasse e até mesmo o mais sábio líder e o mais bravo guerreiro da tribo lhe prestavam homenagens, tocando o chão em frente à sua casa e depois a própria testa, como sinal de grande reverência.

Se alguém da tribo ficava doente, se feria ou estava para morrer, os mais velhos iam até a casa do curandeiro, já em noite avançada, e faziam cantos e orações, pedindo seu auxílio.

Pela manhã, quando todos acordavam, já estava na porta da casa do doente os banhos, beberagens e todos os remédios que o velho havia preparado. Muitas vezes, o doente acordava envolto em folhas e coberto de alguma pomada de ervas. A cura vinha na maioria das vezes.

Quando alguém morria, seu corpo era deixado sobre folhas e flores, em frente à casa do curandeiro, e na manhã seguinte, o corpo estava preparado, limpo e perfumado com as ervas certas e o funeral poderia seguir seu curso.

A casa de Xapanã era distante das demais, quase coberta pela mata, em um lugar escuro e que causava medo, especialmente nas crianças.

Todos ficavam curiosos, mas ninguém se atrevia a olhar o que acontecia de madrugada, pois somente os mais velhos e os caçadores podiam andar por aqueles lados à noite. Sair de madrugada era proibido para os demais.

A tribo toda contava histórias sobre Xapanã. Alguns diziam que ele era um monstro, e se escondia por conta de sua feiura. Outros contavam que ele era apenas muito tímido e não gostava que ninguém o tocasse e por isso preferiu ficar recluso.

Os mais velhos, para assustar os moços, diziam que de madrugada a casa toda se iluminava por dentro e era possível ver luzes de várias cores por entre as palhas, num verdadeiro espetáculo.

Todos respeitavam Xapanã e o velho cuidava da vida e da morte de cada um dos habitantes daquele lugar.

A paz profunda e antiga fez os mais velhos esquecerem dos tempos de batalha, e assim também não ensinaram aos mais jovens a como lidar com as ameaças que chegavam ás portas da aldeia.

***

Numa noite, uma velha senhora – “quase tão velha quanto Xapanã!”, todos pensaram e riram quando a viram – entrou na aldeia em busca de abrigo. Era uma velha muito feia, com aparência asquerosa, o que fez com que todos a tratassem muito mal.

O único que a recebeu bem foi Ubirani, um menino, que lhe serviu água fresca e um pouco de milho assado e deitou a velha em uma esteira. O menino lhe disse que iria chamar um dos chefes da tribo e a velha lhe sorriu.

Quando Ubirani entrou na casa onde os mais velhos decidiam a vida da tribo, foi logo recebido com vários tapas na orelha, pois ali não era lugar de criança.

Mesmo pedindo desculpas por entrar ali e explicando a situação daquela senhora, os velhos ranzinzas o expulsaram da casa e mandaram que ele também expulsasse a velha de lá, e que lhe dissesse que nunca mais voltasse.

Ubirani ficou encabulado e muito triste explicou para a velha que ela não poderia ficar ali.

A velha sorriu mais uma vez e disse que iria embora. O menino se despediu triste.

Passados alguns dias, chega ás portas da aldeia uma moça que se dizia perdida. Procurava um lugar para recolher água, já que seu açude estava seco.

A moça carregava alguns colares, e disse que queria trocar por comida, pois a mandioca em sua terra apodrecera na terra e o seu milho nascera seco e morreu.

A beleza da moça era surpreendente e todos ficaram encantados.

Os mais velhos se arrumavam, os moços passavam carvão nos músculos, para destaca-los e mostrar com o eram forte.

As moças a olhavam encantadas e as crianças corriam para perto dela.

Todos estavam quase que hipnotizados, menos Ubirani, que apesar de tudo sorria e também quis ajudar aquela moça.

Os moços se amontoavam e tudo lhe ofereciam de bom grado sem nada aceitar em troca; Lhes bastavam os sorrisos da moça e a esperança de conquistá-la de algum modo.

Dezenas de cabaças cheias de água, cestos de milho e farinha, beiju assado e peixe seco, além de muitos voluntários para levar aquilo tudo, onde quer que fosse.

Ubirani só tinha em mãos uma pequena manga, que acabara de colher e um pouco d’água em um pedaço de bambu.

Enquanto os moços brigavam para saber quem levaria os presentes da moça, Ubirani se aproximou e lhe ofereceu o mimo.

A moça aceitou o presente de bom grado, e sorriu para o menino, elogiando seu bom coração.

A moça então pediu que ele buscasse na mata a flor mais bonita que encontrasse e que não voltasse de lá enquanto não a encontrasse.

Ubirani saiu feliz pela mata adentro, sem imaginar o que estava por vir.

Quando a confusão terminou, um dos moços se aproximou e disse:

– “Eu e os meus companheiros vamos levar tudo isso para onde você quiser!”

A moça deu uma gargalhada e com o olhar muito sério disse:

– “Não quero nada dessa terra maldita!”

Todos olharam abismados, no que a moça continuou:

– “Quando eu cheguei aqui como uma velha, só um menino inocente me ajudou. Agora que estou jovem e bonita, todos querem me agradar. Essa aldeia não merece viver!”

A moça se encolheu e se tornou novamente a velha enjeitada, para o espanto de todos. A velha abriu os braços e virou uma ave negra que soprou com suas asas uma fumaça escura por sobre toda a vila e foi embora resmungando.

A fumaça encobriu tudo e a escuridão tomou conta do lugar. Todos ali viraram pedra.

***

Ubirani se assustou quando voltou da mata, e começou a chorar.

Sem saber o que fazer, o menino foi até a casa do velho Xapanã e ajoelhou-se, implorando a ajuda do curandeiro.

Comovido com as lágrimas do menino, o velho decidiu responder ao seu apelo e se mostrar.

A casa de palha se iluminou e de dentro dela era possível ver uma pessoa em pé, com um cajado nas mãos, mas não se via nada mais.

O homem bateu seu cajado no chão e a casa toda encolheu, recobrindo seu corpo com as palhas. Ubirani olhava a tudo encantado com tanta beleza!

Xapanã se aproximou do menino ajoelhado e pediu que ele levantasse. Interrompendo o choro soluçante do menino, o velho curandeiro disse que sabia de tudo que estava acontecendo e que aquela bruxa era uma velha amiga sua.

A bruxa velha vinha de tempos em tempos testar a caridade dos homens e quando contrariada, lançava suas pragas.

Mesmo vendo tudo que acontecia, o velho não poderia interferir nas escolhas da tribo, da mesma forma como não poderia fazer nada, pois aquilo era apenas a consequência da falta de humildade daquelas pessoas.

Ubirani abaixou a cabeça e tirou de dentro de sua pequena bolsa uma flor de maracujá, a flor mais linda que o menino encontrou nas matas e ofereceu a Xapanã.

O menino ajoelhado colocou a flor aos pés do curandeiro e pediu:

– “Senhor Xapanã, salve a nossa aldeia. Eles não fazem por mal. Ajude a curar todo mundo.”

O velho curandeiro se encheu de luz por debaixo das palhas e disse ao menino:

– “Você é o mais sábio desta terra, menino! Seu coração é puro e seu amor salvou a todos neste chão.”

Xapanã pegou a flor em suas mãos e ergueu seus braços aos céus e implorou ao Pai que a cura se fizesse.

O velho apanhou um pouco de milho e fazendo suas orações, jogou aos céus, ordenando que aquela praga se desfizesse.

Os grãos de milho subiram muito alto aos céus e tudo se clareou. Começou a chover pipoca!

A pipoca caia dos céus em uma chuva branca e bendita. Cada pedaço da aldeia foi banhado por aquelas pipocas, tudo ficou coberto.

Ubirani pulava de alegria ao ver a chuva de pipocas e ficou mais feliz ainda quando todos da aldeia começaram a se mexer a ganhar cor.

Ainda encantado com as pipocas, Ubirani correu para agradecer ao velho Xapanã quando viu uma cena que lhe tirou o fôlego mais uma vez.

Abriu-se uma cratera no chão em torno do curandeiro e Xapanã estava sendo tragado pela terra, que lhe cobria gentilmente o corpo.

Xapanã sorriu e acolheu a terra como sua mãe e irmã.

Nesta hora, os mais velhos da tribo, já de volta à forma humana, se ajoelharam em agradecimento e cantavam:

“ Salve Obaluaiê! Salve o Senhor da Terra! Salve o Senhor das Pipocas!”

Ofereceram a Ubirani a liderança da aldeia, encargo que o menino aceitou com humildade e discrição, em uma postura digna de homem feito.

O menino se tornou o maior e mais sábio líder que aquela comunidade já teve.

Xapanã virou divindade, virou Obaluaiê, o senhor da terra e das passagens. O senhor da cura e da doença, do branco e do preto. O grande senhor dos antagonismos e, para sempre e desde sempre, o grande senhor das pipocas.

Atotô!

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