Os Cangaceiros na Umbanda – A força do Sertanejo

“Subi a serra, desci a ladeira, Maria Bonita cantava Mulher Rendeira”.

A linha dos Cangaceiros é uma das mais recentes a vir em terra no culto de Umbanda, como linha independente. Porém, já vem de longe a história desta linha na Umbanda, que normalmente vem em terra junto com a linha dos Baianos.

Há ainda poucos terreiros que cultuam e entendem os Cangaceiros como uma linha separada, com estrutura e fundamentos próprios, não havendo também um desenvolvimento específico para esta linha.

Da mesma forma, para a maior parte dos médiuns da Umbanda, quando um guia da linha dos Cangaceiros dele se aproxima e se alia à sua corrente, normalmente se apresentará como um Baiano, sem que isso lhe retire sua essência e sua forma de trabalhar.

Para entender a razão de haver uma linha de trabalho que leva o nome e o arquétipo dos Cangaceiros, é importante entender duas coisas: O Aspecto social da Umbanda e o que representou o cangaço.

A Umbanda, como já dito em outros textos, tem um fortíssimo caráter social e, sem sombra de dúvidas, todas as linhas que hoje vem em terra trabalhar, tem seu nome, arquétipo e forma de trabalho definidos por características de nossa sociedade. As correntes da Umbanda dão voz aos excluídos, aos rejeitados, aos discriminados. E com os Cangaceiros não é diferente.

O cangaço normalmente é lembrado por duas visões: Como um movimento de banditismo social, onde os cangaceiros eram vilões, assassinos e saqueadores ou como um movimente de resistência, onde o Cangaceiro é o herói, dando voz e armas ao povo sofrido contra os desmandos da recém fundada República.

A verdade é que o Cangaço foi um movimento político-social muito complexo e com muitas divisões que iam muito além de Lampião e seu bando, sendo assim, qualquer tentativa de classificar o movimento como heroísmo ou vilania é vazia.

Para muitos, os Cangaceiros representavam terror e medo, para tantos outros, apenas libertação da fome e da opressão. O fato é que cada pessoa que participou dentro, contra ou a favor do Cangaço naquele momento, o fez por que julgou ser o mais correto naquele momento e, infelizmente, muitos pagaram com a vida por suas escolhas.

Sendo assim, é inegável a importância do Cangaço para a sociedade brasileira e. consequentemente, isso se refletia na espiritualidade.

No mesmo instante que os cangaceiros começaram a desencarnar deste plano, conforme foram sendo acolhidos, recolhidos e, muitos deles, resgatados das regiões umbralinas, estes espíritos receberam a  oportunidade de expressar sua personalidade e utilizar seus conhecimentos e a sua força, formando falanges no Astral, utilizando os nomes, as vestes e os instrumentos de trabalho que já utilizavam quando encarnados.

Assim nascia a linha dos Cangaceiros que aos poucos foi começando a atuar nas mais variadas tarefas no Astral e junto aos encarnados, sendo também recebidos nas fileiras da Umbanda assim que estavam prontos.

A exemplo dos guias pertencentes às demais linhas, hoje dificilmente se verá em terra um guia que vem como Cangaceiro que de fato pertenceu ao Cangaço, pois a maioria dos pioneiros destas linhas já não vêm mais em terra por estarem em um padrão vibratório mais elevado, porém continuam emprestando seu nome, suas vestes e ferramentas, seus conhecimentos e ensinamentos para irmãos recém-chegados que vão trabalhar em suas falanges.

O Cangaceiro representa o nordestino sertanejo. Povo sofrido, endurecido, que foi explorado de todas as formas. Passou fome, enfrentou a morte e a tirania. Teve tudo que era seu roubado e ainda saiu devendo. Nasceu com quase nada, perdeu o pouco que tinha.

Mas é o povo que mesmo diante de tanta tristeza, de tanta injustiça, sempre encontrou alegria e força pra enfrentar seus maiores desafios. É da revolta que levou o sertanejo a pegar em armas e lutar contra o estado que nasce a força do Cangaceiro.

O Cangaceiro é um guerreiro, um soldado, um combatente que luta bravamente por seus ideias e pelo quinhão de justiça a que tem direito. É essa força, essa retidão, esse senso de justiça e proteção, essa bravura pra lidar com seus inimigos que hoje os Cangaceiros trazem para as fileiras da Umbanda.

São uma corrente experienciada em lidar com energias densas e espíritos trevosos e extremamente endurecidos em seu monoideísmo, sendo hábeis caçadores de energias contrárias e demandas, intencionais ou não, direcionadas contra os encarnados.

Também prestam forte auxílio a todas as correntes em seu trabalho de campo, seja recolhendo e resgatando irmãos em busca de auxílio ou na lida com as mais variadas energias. Estes valorosos e honrados soldados de Oxalá estarão sempre a postos, com seus gibões vistosos, chapéu ornamentado e muita bala na cintura pra combater o bom combate.

E é isso que eles nos ensinam. Combater o bom combate, sermos guerreiros, soldados, lutadores, e lutarmos bravamente contra a injustiça e a desigualdade e a favor do bem, em prol da caridade e, principalmente, lutarmos por nossas vidas, por nosso sustento, por nossa felicidade e pela felicidade daqueles que nos cercam.

Ter força quando tudo parece perdido, quando o inimigo é maior, mais preparado, ter valentia quando todos correm, enfrentar o medo quando é mais fácil (e lógico) se esconder.

Esta é a força do sertanejo, esta é força dos Cangaceiros.

Com as bençãos do amado “padim”, o Padre Cícero, que com seu amor pelo povo acolhia a todos, indistintamente, desejo que a força dos Cangaceiros lhe proteja e acompanhe em todos os dias de sua vida.

Que Nosso Senhor Jesus Cristo acompanhe os vossos passos, sob o manto de Nossa Senhora.

Viva os Cangaceiros! Salve o povo do Sertão!

Axé!

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