“Pergunte pro seu Orixá: o amor só é bom se doer”… Será isso mesmo?

Vinícius de Moraes escreveu muitas músicas com temas de Orixás (como aquela que diz:“Meu pai Oxalá é o rei, venha me valer…. O Velho Omulu, atotô Obaluaê…”), e em uma música dedicada a Ossaim (ou “Ossanha”) canta assim:

Amigo sinhô, saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha, não vá
Que muito vai se arrepender
Pergunte pro seu Orixá
Amor só é bom se doer

E fica a pergunta: Será que o amor só é bom se doer? Que orixá diria isso para seu filho? Será que se pudéssemos perguntar à mãe maior do amor, Oxum, será que ela diria que o amor tem que doer? Acredito que não.

Mas veja o quanto a gente sofre por amor, como este sentimento que deveria ser a maior fonte de alegrias se torna um martírio, uma dor que machuca o coração e faz com que tanta gente tome atitudes erradas, ou até se feche numa concha fugindo do amor, muitas vezes apenas por medo de se machucar novamente.

Se você concorda que o amor é uma coisa boa, então sabe que o problema então não está no amor. O problema está na nossa forma de viver o amor. Porque infelizmente ainda vivemos o amor como uma grande ilusão, fantasiando o parceiro como alguém perfeito e feito para a gente. É a ilusão do amor perfeito, da alma gêmea, da metade da laranja.

Só que não existem metades da laranja, Deus nos criou perfeitos e completos, e pediu à mãe Oxum que nos ensine antes de tudo a amar sem temer, amar sem medo e sem se iludir.

O amor de Oxum é maior, muito maior que um relacionamento, maior que um casamento, maior que uma vida em conjunto. É o amor por aquela pessoa que estará conosco a nossa vida inteira e que deve ser nosso maior apoio: o amor por nós mesmos.  Só é feliz no amor quem aprende a amar a si mesmo em primeiro lugar, que deixa que o amor cresça e transborde o nosso próprio corpo e permita amar outras pessoas até conseguir amar como só mãe Oxum consegue: amando o mundo inteiro.

E Jesus não nos deixou a mensagem que nós faremos tudo que ele fez e ainda mais? (João 14:12) Isso quer dizer que trazemos em cada um de nós uma partícula do Deus que nos criou, do Orixá que nos deu seu axé, e de todos os orixás da Terra. E que existe dentro de nós um pedacinho de Deus que pode nos trazer uma fonte infinita de amor e alegrias.

Então porque não deixar a força de Oxum e do seu amor nos guiar neste universo? Esse é o verdadeiro amor, o amor por si mesmo, pelas suas próprias dificuldades, e até pelos seus defeitos, porque estamos todos no caminho da evolução. E só quem ama seus defeitos sabe compreender e lidar com os defeitos do seu parceiro. Ou saberá impor limites para que o amor do outro nos machuque.

Sem embarcar em fantasias de que somos metades, que precisamos de um amor para nos tirar da solidão, ou que a nossa felicidade só vai existir se estivermos com alguém. Ou então com a pior fantasia de todas: achar que o parceiro é perfeito… pois do mesmo jeito que nós não somos perfeitos, nenhum ser humano é.

Se você for fazer o que Vinícius de Moraes canta e for perguntar sobre o amor a algum orixá, pergunte praquele pedacinho de Oxum que todos nós carregamos dentro de nós. Você vai ver que o amor pode ser bom sem doer pra ninguém.

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Cleber Quichimbí

Cleber Quichimbí

Cleber 39 anos, filho de Oxalá... Idealista e emotivo. Metódico. Estudioso. Qualquer brinquedo é motivo para ser montado e desmontado. Este é seu maior desafio na vida: entender como as coisas funcionam nos mínimos detalhes.

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