Ponto Cantado: A oração que vem do coração Umbandista

(…) Quem rezar por mim que o faça sambando, (na paz do Senhor)
Porque um bom samba é forma de oração, (na paz do Senhor)(…)”

Não poderiam ser mais bem feitos os lindos versos do Mestre Candeia, que na sua maestria, trouxe em seu inesquecível “Testamento de Partideiro” o nosso ponto de partida: “Um bom samba é forma de oração”.

O ponto cantado é um dos mais bonitos fundamentos da Umbanda e, talvez, junto com os atabaques e o perfume da defumação, um dos maiores responsáveis por atrair a curiosidade de tantos irmãos que hoje, de algum modo, se identificam como Umbandistas.

Os pontos cantados – ou apenas pontos, como a maioria de nós chama no dia a dia – não são apenas a música que embala o culto, são, em si, verdadeiras orações, compassadas e ritmadas com a cadência das batidas dos corações de cada pessoa que participa de uma gira de Umbanda.

Os pontos carregam em si grandes ensinamentos, pois em seu conteúdo simbólico e sua simplicidade, expõe fundamentos litúrgicos e energéticos do culto de Umbanda e fazem parte da tradição oral herdada principalmente de nossas matrizes nativo-brasileiras e africanas.

Uma pequena quartinha, simples versos, podem trazer um enorme axé, ancorando, energizando e dissipando forças, quando entoada com fé e amor pela corrente, como este singelo ponto, que ancora lindamente a força do povo baiano, e pode trazer a luz desses amados trabalhadores mesmo nos momentos mais obscuros:
Na Bahia tem, eu vou mandar buscar
lampião de vidro, ô sa’dona
para clarear”

O “lampião de vidro” que tem na Bahia e que vem pra “clarear” é a própria força, luz, energia e alegria dos Baianos que militam nas correntes de Umbanda de forma tão caridosa e amorosa.

Quando os pontos cantados foram trazidos para o culto de Umbanda, somente se entoavam os cantos ensinados pelos guias, notadamente os mais profundos em fundamentos e conteúdo simbólico – e até mesmo linguagem iniciática – como, por exemplo, se fazia na Tenda Nossa Senhora da Piedade, onde os pontos cantados por Pai Zélio e seus filhos eram cantados sem palmas ou atabaques, quase em sussurro, tudo por determinação da hierarquia espiritual da casa.

Com o passar do tempo, novos pontos foram trazidos, seja por intuição, compostos pelas milhares de curimbas brasil – e mundo – afora ou emprestadas do cancioneiro popular, o que só reforça a plasticidade do culto de Umbanda em ter a capacidade de dialogar com todos a abarcar todas as manifestações de fé e amor em seu escopo.

Cantar um ponto é a mais pura e singela manifestação de fé e tem em si poderosos componentes magísticos e energéticos.

Além de cantar uma reza, o canto em si movimenta o corpo todo, faz a emergia passar por todos os chakras, explodindo no laríngeo em uma torrente de luz que se une a toda a corrente e assistência, formando verdadeiro elo de forças e amor que banha, indistintamente, a cada um que, de algum modo, ali se faz presente, mesmo que muito distante.

Se “quem canta, seus males espanta”, quem canta um ponto reza com o coração; Reza na palma das mãos; Reza no couro do atabaque; Reza com o corpo que dança; Reza com o choro cantado embota a voz e alegra o coração.

Salve o ponto!

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