Este texto incrível foi publicado pela Priscila Gonçálves em sua timeline no Facebook em 07/11/2017 e gentilmente cedido por ela para republicação em nossa página.

Priscila, muito obrigado pelo seu lindo relato e pela iniciativa. Suas palavras expressam o amor que sustenta a todos nós. Axé!

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“Ontem, dia 05/11/2017, estive numa celebração afro-brasileira na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França. Esta foi a segunda oportunidade de ir numa missa deste tipo, mas dessa vez resolvi escrever para contar da minha experiência.

Antes dos relatos, preciso apontar que pertenço à vertente cristã protestante, especificamente a tradição histórica Batista. Sou bacharel em Teologia, formada em seminário confessional, e até vir morar em São Paulo, nunca tinha ouvido falar sobre missas Afro. À princípio é uma experiência duplamente desconfortável. Primeiro porque sou uma batista numa igreja católica. E segundo porque nessa missa, o catolicismo tradicional fica à espera do próximo domingo, ou da próxima oportunidade da “liturgia acontecer”.

Ao invés de órgãos, atabaques. Ao invés de salto alto ou sapatos lustrados, pés descalços e calejados. Ao invés de roupas com tons pastéis e neutros, turbantes e mantos coloridos de ÁFRICA e vida. Fui surpreendida por cumprimentos das pessoas que chegavam para a celebração. Gente que nunca vi fazendo questão de apertar minha mão, até abraçar. Quando entrei na igreja, de prontidão recebi um sorriso da organizadora da missa, e outro do responsável pela liturgia de atabaques. Fiquei à vontade e me sentindo acolhida…coisa que as vezes não sinto ao entrar numa igreja de minha própria confissão de fé, onde a dita reverência é confundida com individualismo espiritual. Comunhão? Com Deus. Os irmãos esperam!

E a missa começou com algo bem familiar: um prelúdio. Só que ao invés de piano, teclado, órgão ou coral, os cantos de matriz africana acompanhados do atabaque bem baixinho fizeram o anúncio do que posso tranquilamente chamar de culto. Segue a letra do pimeiro canto:

AUÊ, MEU IRMÃO CAFÉ! AUÊ, MEU IRMÃO CAFÉ!
MESMO USADOS, MOÍDOS, PILADOS, VENDIDOS, TROCADOS, ESTAMOS DE PÉ!
OLHA NÓS, AÍ, MEU IRMÃO CAFÉ.

Leia de novo essa letra!

Estamos de pé. Estamos de pé. Estamos de pé. Estar de pé mesmo sendo moído, pilado, vendido, trocado, só faz sentido se houver um irmão para compartilhar, nem que seja um pouco de café. A realidade dura de servidão e dor que os negros, meus antepassados, passaram estava diante de mim, não mais como som de pranto, mas como música. Aquela canção fazia tanto sentido para eles e para mim, que a única vontade que tive foi de chorar. Um senso de unidade invadiu aquele espaço, e como o texto bíblico em Gálatas aponta, “Não havia judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher – branco ou negro, rico ou pobre, batista ou católico – porque todos nós éramos um em Cristo Jesus”.

Para deixar bem claro uma questão importante: Não estou discutindo Teologia, Religião ou denominacionalismo. Esse é um relato de experiência, que por sinal, me ensinou muito, para além de todos os assuntos apontados acima. Gostaria então de compartilhar alguns pontos que me despertaram tanto a atenção quanto o respeito pelo que estava acontecendo ali.

1 – Já citei aqui que todos se cumprimentavam ao chegar na igreja. Antes de fazerem as orações pessoais, não economizavam sorrisos, apertos de mão e abraços. Mesmo que não fosse um conhecido (o que era a maioria dos casos), as pessoas faziam questão de notarem a presença umas das outras e dar a devida importância ao próximo.

2 – O momento das ofertas foi um tanto diferente daquele que temos na igreja protestante em geral. Ao invés de justificar teologicamente, ou para ser mais amena na fala, embasar biblicamente o pedido de dinheiro, chamado dízimo, a oferta dos fiéis era de alimentos. Bolos, frutas, pães, alguns doces. Depois de trazerem as ofertas no altar, o padre fez um breve aviso de que ao final da celebração, os irmãos estavam convidados para a PARTILHA daqueles alimentos. Era uma doação com o intuito de servir aos que lá estavam; uma contribuição voluntária que tinha como objetivo o fortalecimento da comunhão dos presentes. O dinheiro foi secundário, nem sequer foi mencionado.

3 – A centralidade da Trindade em toda a liturgia era algo interesse. Cada pessoa da Trindade era devidamente citada e adorada. Em um dos cantos entoados, a letra dizia: “Em nome do Pai, Deus Criador. Em nome do Filho, Deus Redentor. Em nome do Espírito Santo, Deus de amor”. Até a bíblia, que dizem que os católicos não usam foi lembrada no canto que dizia: “Lá vem o negro trazendo a bíblia na mão. Ele sonha, ele luta por sua libertação” ou então, em outro canto: “Olha que coisa mais linda é a Palavra do meu Deus”. É maravilhoso quando a religião aparenta ser mais do que um costume. O que percebi naquela missa era a história cantada de escravos e escravas que reuniram forças no cristianismo para vencerem as adversidades e dores do dia a dia. Não é teologia feita do gabinete, nem do escritório do sistemático. É sentido de vida construído também pela religião, apesar da chibatada; na resistência, na força de acreditar que apesar de tudo “a proteção está no nome do Senhor”, com S maiúsculo.

4 – No momento da comunhão, ou da ceia – como é mais comum aos protestantes – os adultos que estivessem preparados para comungar foram chamados. A hóstia lhes foi entregue como sinal do corpo de Cristo, e logo em seguida, as crianças foram chamadas a participarem de forma simbólica deste rito. O padre deu a cada uma delas um pão de queijo que fora doado no momento das ofertas. Todas elas participaram com alegria do momento máximo para qualquer cristão, que é o de memorar a vida e também a morte de Jesus Cristo. Lembrando de Paulo, contudo, indo com todo respeito um pouco além dele, o importante é que essas crianças entendam o que estão fazendo e que anunciem a vida e razão da morte do Senhor, até que ele venha (seja como for).

4.1 – Ainda sobre a comunhão…não poderia deixar de relatar uma cena interessante. Quando todos os adultos, já em seus lugares, e também as crianças tinham retornado aos seus pais, eis que surge um morador de rua no corredor da igreja. O homem cruza todo o corredor sozinho, para defronte ao altar, olha tudo o que tem ali (as ofertas de comida estavam sobre a mesa do altar); e sem ser combatido, vigiado ou punido pela audácia de “atrapalhar a ordem do culto”, aponta sutilmente para o que sobrou do pão de queijo. O padre o olha, consente que ele pegue o pão que é logo em seguida transformado em tapeçaria da sua fome. Sabe o que foi mais interessante? Ele não encheu a mão de pão de queijo para saciar a fome que aparentemente tinha. Ele pegou um pão, mordeu, agradeceu e se foi. Até agora eu não sei se ele pediu o pão por causa da fome mesmo, ou se ele se identifica com os pequeninos. Acho que a necessidade dele não era a de comida, mas de comunhão; se sentir parte; se sentir gente. E pensando bem, são esses que se assentam na mesa do Senhor.

5 – No momento oficial de comunhão, todos se abraçaram e cumprimentaram. Sim! Teve comunhão de novo. E vou citar isso de novo. Fiquei ainda mais surpresa quando o próprio padre veio falar comigo como se fosse uma de suas ovelhas. Sabe por que acho isso tão importante? Porque entendo que no cristianismo, a atitude de acolher antecipa o anúncio da Boa Notícia.

Por fim, reflito sobre o quanto aquele momento era precioso e significativo para todas aquelas pessoas. A minha família materna é toda negra, de origem nordestina, especificamente da Bahia. Eu, nascida no estado do Rio de Janeiro, nem de longe tenho ideia do que meus antepassados sofreram. Também nem tenho ideia do quanto ainda sofrem aqueles que tem de provar que são gente ainda hoje, mesmo que o ano de 1888 esteja há 129 de distância de nós. Para ilustrar essa questão, minha mãe me contou que quando passeava comigo, confundiam-na com a babá.

Aquela missa, sobretudo, tinha um ambiente de celebração e resistência. Celebração por poderem lembrar de todos aqueles que já lutaram por liberdade, dignidade e paz. E resistência porque não mais vão para os pelourinhos oficiais, mas ainda precisam ser fortes e unidos para enfrentarem os desafios modernos e os resquícios de maldade que frequentemente os açoitam de forma simbólica, ou não.

Precisamos vencer o racismo. Precisamos vencer a intolerância religiosa. Precisamos ser irmãos, livres, pois foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Amém! Axé!”

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