Vamos falar sobre a pombogira da novela Carmem?

Nos anos 1980 o Brasil parava pra conhecer a história do pacto de sangue entre Carmem e a Pombogira Cigana. E também para ter um primeiro contato com estas entidades, mesmo que de uma maneira meio controversa…

Sem medo de entregar minha idade, algumas pessoas ainda não eram nem nascidas quando a novela Carmem foi ao ar na extinta TV Manchete, em 1987. Quem escrevia a novela era uma autora desconhecida chamada Gloria Perez que depois já na Globo fez Caminho das Índias, Salve Jorge, O Clone…

E na década de 1980 a televisão pegava no máximo dois ou três canais, a Globo e a Manchete e as vezes algum outro como SBT ou Record. Ou seja, o país inteiro assistia a mesma coisa ao mesmo tempo. Final de novela era um evento tão importante que parava o país como fosse final de copa do mundo com o Brasil jogando.

E aí nessa época aparece uma novela chamada Carmem, que contava a história da própria Carmem (Lucélia Santos) correndo atrás de um homem que não queria ficar com ela(nesse ponto mudou pouca coisa nas novelas até hoje). Só que ela resolve então fazer um pacto com a “Pomba Gira Cigana” interpretada pela Neusa Borges que roubou a cena e virou a sensação da novela.

E o trabalho da Neusa Borges fica tão bom que ela traz pro personagem alguns trejeitos, algumas formas de se expressar, até as roupas e a gargalhada que metia medo na gente até do outro lado da TV, tudo era tão convincente que o personagem “pegou” e foi ali que a figura da pombogira sai do canto escuro que era relevada dentro dos terreiros e é jogada direto pro povão.

A pombogira faz um ‘pacto de sangue’ pra trazer o homem amado em alguns dias (soa familiar? pois é, olha de onde veio essa conversa!) e ter em troca ‘a alma’ da Carmem.

E é lógico que a Umbanda, por ser uma religião tão brasileira num ia poder ficar imune à influência da televisão, afinal brasileiro ama novela desde sempre.
E pronto, estava criado o arquétipo da pombogira. Não só criado como exposto pro país todo de uma maneira dramática e muito envolvente como é tudo numa boa novela.

Neusa Borges

Quantas pessoas não incorporaram para si o arquétipo da pombogira da novela?

A partir dali, a palavra pombogira remetia à gargalhada exagerada, os modos vulgares, a roupa exorbitante, os aneis com pedras de sangue, punhais… que bebe champanhe e se cobre de rosas e joias… e o tal do pacto, lógico.

Claro que aí começa a baixar em todo país uma legião de “pombogiras da novela Carmen”, guias que até então se disfarçavam, trabalhavam em quase segredo, em giras fechadas, ou mesmo sem poder baixar e trabalhando só no plano astral, e que agora encontravam ali uma brecha dentro do próprio psiquismo dos médiuns e começam a chegar nas giras de Umbanda.

Sim, com o tempo a poeira abaixou e as pombogiras mostraram que vinham pra missões mais nobres que amarrar homem e transformá-los em “bonecos na mão” de uma mulher contra sua vontade. E quer um jeito mais de esquerda do que esse pra se mostrar ao mundo? Pois se Exu é quem traz a ruptura, é quem dá aquela chacoalhada nas estruturas da sociedade, quem melhor que um Exu mulher pra transformar uma imagem negativa, de ser quase uma bruxa do mal, e se mostrar como um ser de luz pras pessoas? Que na verdade ela traz amor próprio e não amor arrastado, prosperidade de oportunidades e não de dinheiro, e que é a primeira a proteger quem abusa das fraquezas dos outros.

Muitas pessoas criticam a novela, dizem que ela influenciou os médiuns a copiar os trejeitos da pombogira fictícia ou que fez as pessoas embarcarem na fantasia e correrem atrás de pactos como os da Carmem para conseguir amarrar homens gerando uma “demanda” por esse tipo de trabalho contrário ao que prega a Umbanda, que num amarra ninguém a ninguém pois é fundada no conceito do livre-arbítrio do espírito.

Quem sabe hoje a novela fosse acusada de representar a cultura das religiões de matriz africana de uma maneira exagerada, quase uma caricatura, com ares de mistério, de algo oculto num mundo de sombras com acesso exclusivo aos iniciados, cercados por toda uma sociedade curiosa em saber o que afinal acontecia ao som dos atabaques. No entanto essa discussão não existia na época e aquele conteúdo todo foi assimilado tanto pelos consulentes como pelos médiuns.

Eu acho que é muito fácil criticar a novela dizendo que até hoje muito médium imita aquilo que vê, ou o que é pior, exige do guia que se comporte igual a este padrão inventado pela TV, como se todo guia fosse igual e até duvidando da presença da pombogira caso ela não “prove” que existe agindo como uma cópia bem feita da novela.

No entanto quem se apressa em criticar a novela esquece que a Umbanda é antes de tudo uma religião muito aberta ao sincretismo, tanto que os santos convivem muito bem com os orixás e com a filosofia kardecista, coisas que são excludentes entre si (kardecista não pode cultuar imagem, católico diz que orixás são demônios, etc…).

E é claro que os terreiros não passariam por esse fenômeno dos anos 1980 sem misturar essa influência dentro desse imenso caldeirão que é a religiosidade do Brasil.

E encerro com a pergunta: tem coisa mais “de Exu” do que pegar uma coisa que tinha tudo pra ser ruim e transformar em algo bom?

rosa vermelha

PS: No final da novela o amor vence. Uma forma de amor, que é o amor pela liberdade… mas você vai ter que buscar sozinho pra saber o que acontece!

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Cleber Quichimbí

Cleber Quichimbí

Cleber 39 anos, filho de Oxalá... Idealista e emotivo. Metódico. Estudioso. Qualquer brinquedo é motivo para ser montado e desmontado. Este é seu maior desafio na vida: entender como as coisas funcionam nos mínimos detalhes.

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